segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Fantástico Borges

Eu, que estou no meu quarto livro desse autor, e o admiro desde o primeiro conto lido, resolvo compartilhar este texto abaixo, que faz uma resenha concisa e brilhante da fenomenal obra do escritor argentino.. Sem mais delongas, eu não me atreveria a reescrevê-la..



Jorge Luis Borges (1899-1986) em vida, já era um clássico. Consagrado como um dos maiores escritores do século 20,  era solicitado para entrevistas, palestras e aulas nas mais prestigiadas universidades do mundo, onde recebia títulos de doutor honoris causa. Entre uma viagem e outra, continuava criando os contos de teor fantástico e intelectual que lhe renderam fama. Fama, aliás, que tratava com uma refinada auto-ironia: “Eu não sei se minha obra merece essa atenção, eu acho que não, acredito que sou uma espécie de superstição, agora, internacional”. O que o interessa é o futuro. Na biblioteca particular, costumava afirmar que não mantinha sequer um livro de sua autoria, e desdenhava da própria relevância como escritor. Só se interessava pelo que ainda iria escrever.
Borges antecipou-se à era da globalização e ao multiculturalismo. Apregoava uma visão cosmopolita e, por diversas vezes nos encontros, situava os argentinos como europeus, ou gregos, no desterro. Queria dizer com isso que as culturas contemporâneas são uma herança do diálogo de tradições que remetem à Grécia e à Roma antigas e às civilizações primevas da Índia e da China. Assim, foi um dos primeiros escritores a divulgar e ser influenciado pela filosofia e pelas religiões orientais, principalmente o budismo, que o levou a crer numa espécie de carma, em oposição ao livre-arbítrio do homem.

Seu método de escrita consistia em ter uma idéia concebida em seu início e fim, para em seguida trabalhar exaustivamente cada palavra, frase e período, ambientando seus personagens, de preferência, em tempos passados, a título de maior liberdade estética.
Suas entrevistas pareciam adquirir a consistência de um ensaio sobre a matriz estética e idealista do universo, a qual Borges conferiu um toque pessoal. A seu modo, falava como quem escrevia um texto, com direito a se corrigir e lapidar conceitos e palavras.

Borges era um idealista, no sentido filosófico do termo. Para ele, a realidade possuía uma essência onírica e, portanto, tinha algo de fantástico. É essa a hipótese trabalhada em seus contos, e que inclusive deixava explícita na produção oral. Por esse motivo também considerava contraditória a literatura realista. Como toda realidade é fantástica, não faz sentido fazer literatura realista, uma vez que literatura e realidade compartilham da mesma natureza.
Coerente com essa posição, Borges também considerava a experiência proporcionada pelos livros tão abrangente quanto as concretas. Se a vida real não passa de fábula, sonho ou literatura, então, ela pode perfeitamente ser vivenciada através dos textos. Diz ele:
(…) eu me lembro do que li mais do que vivi. Mas é claro que uma das coisas mais importantes que podem acontecer a um homem é ter lido essa ou aquela página que o comoveu, uma experiência muito intensa, não menos intensa que outras.
Um escritor que nunca tenha visto o mar, por exemplo, poderia descrevê-lo com mais intensidade que um marinheiro e, deste modo, passar uma experiência mais vívida. Em outras palavras, constrói uma narrativa melhor de mundo, mais convincente (formulação da qual o filósofo neopragmatista Richard Rorty talvez não discordasse). Não por acaso, Borges é um dos escritores mais citados e estudados pelos críticos e filósofos pós-modernos, por conta dessa concepção de fabulação ou estetização de mundo, cujas raízes nietzschianas eram também caras aos pós-estruturalistas.

Ler, para Borges, é um ato voluntário e hedonista. Obrigar alguém a ler, lembra, é o método mais eficiente para fazer com que uma pessoa odeie livros: “Em todo caso, eu não gostaria que meus livros fossem de leitura obrigatória, uma vez que obrigatório e leitura são duas palavras que se contradizem, porque a leitura tem que ser um prazer, e um prazer não tem que ser obrigatório, tem que ser algo que se procura de maneira espontânea, sim.”
Com certa dose de exagero, diz que nunca havia lido um romance do começo ao fim. “Gosto de folhear; isso quer dizer que sempre tive idéia de ser um leitor hedonista, nunca li por sentimento de dever.”  Fez questão de desprender-se de qualquer escola ou contexto sócio-histórico (“A arte e a literatura… teriam que se libertar do tempo.”). Do mesmo modo de Baudelaire, Flaubert e Wilde, dizia que a arte justifica-se a si mesma e não precisa apresentar credenciais a nenhuma chancela de realidade. Shakespeare, Cervantes e Kafka, diz Borges, transcendem sua época por construírem signos descolados do objeto e, por esta razão, abre-se a infinitas interpretações. A capacidade estética era, para ele, algo inerente a todo homem, expresso no sonho, o mais antigo gênero literário. À noite, afirmava, somos todos dramaturgos, encenando narrativas diáfanas.

Dizia que se a própria realidade é de natureza fantástica, também o são as metafísicas e as religiões. A hipótese borgiana vai mais longe, ao propor um deus artista, aos moldes do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (que, ao que tudo indica, não chegou a ler). Certa feita, Borges deu sequência à máxima de Mallarmé, de que tudo que existe acaba em um livro, e de Homero, para quem os deuses provêm aos homens infortúnios, para que tenham o que cantar: “(….) poderíamos supor que tudo acontece não para sofrermos ou desfrutarmos, mas porque tudo possui um valor estético, e com isso teríamos uma nova teologia, baseada na estética”. O deus borgiano é o oposto do Javé colérico que imprime culpa e castigo aos homens.
Haveria, finalmente, um  elo entre religião, estética e ética. Para Borges, a finalidade da religião é prover um norte de conduta ao homem, um propósito de ordem moral. Segundo ele, a ética tem uma origem instintiva (o que significa que qualquer um pode distinguir boas de más ações), mas esta  é aprimorada pela razão. Um ato de bondade é um ato de inteligência e, por conseguinte, o homem culto possui responsabilidades maiores por suas ações. Deus, para Borges, é essa procura racional pelo bem nos homens que, no caminho, encontram resoluções estéticas para compor uma realidade mais suportável e experiências mais sublimes.
Borges, infelizmente, não terminou de revisar sua cosmologia. Como no conto The unending gift (publicado em Elogio da sombra), em que um pintor promete um quadro e morre antes de terminar a obra, deixou um presente mais precioso porque indefinido, na forma de conjecturas.


O autor
O argentino JORGE LUIS BORGES nasceu em Buenos Aires, em 1899. É um dos mais importantes e conhecidos escritores latino-americanos do século 20. Ficou notório pelos seus contos fantásticos, sobretudo os reunidos nas obras Ficções e O Aleph. Iniciou em literatura publicando poesias e também escreveu ensaios. Índices recorrentes nos seus livros, como labirintos,  espelhos, o tempo e a memória fazem parte de sua mitologia pessoal. Depois de ficar cego, em 1955, passou a  compor textos ditando, e a viajar pelo mundo dando palestras. Pouco antes de morrer, casou-se com Maria Kodama, sua secretária particular. Morreu em 1986, em Genebra.

[José Renato Salatiel]

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CARTA A MEU PAI - Kafka



Demorou muito pra eu encontrar em Franz Kafka aquele maravilhamento característico da arte do bem escrever. E foi numa carta que ele se dirigia ao próprio pai. Ali eu percebi todo o seu gênio de artista digno de aclamação na Literatura Mundial. Ainda que, ao que tudo indica, não se trate de uma obra de ficção. Mas uma carta real com destinatário certo (e embora, eu, particularmente, não acredite que seu pai a tenha lido).
O que ele acabou criando foi algo muito maior.. Uma espécie de tratado de psicologia, com a análise minuciosa dos eventos que se sucederam em sua relação com o pai, mostrando ao mundo como uma educação tirânica e opressora pode ter ressonâncias absurdas durante toda uma vida, ao ponto de moldar o caráter e a personalidade do indivíduo.
Fiquei muito tocado, especialmente porque me identifiquei em diversos momentos.. Eu, que (só) tive a presença (amedrontadora) do meu pai até aproximadamente os meus 9 anos.. A leitura me fez buscar reminiscências de uma relação que não se construiu, e contudo, o que houve foi duramente cruel e perturbador... Na verdade, penso que qualquer um pode se ver assim: refletido em Kafka. Talvez não com as mesmas facetas do relacionamento pai/filho, mas no mínimo, análogas; e com consequências e descaminhos distintos - e que não são nem bem nem mal em si mesmos (mas isso não posso explicar agora). Porque a genialidade encontrada no texto provoca isto: ela te suscita a uma análise retrospectiva de suas experiências, primeiro como filho, depois como adulto, e sujeito independente; mas, possivelmente nunca livre da influência paterna, seja por uma presença esmagadora (como a que teve o autor), seja pela ausência desse singular referencial.. 
Quanto ao meu caso, bem... acho melhor ler o relato de Kafka, pois que muitíssimo me ultrapassa em maestria de descrição e argumentação, e em nível de catarse, dor e angústia provocados.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Cultura da Participação


Como a internet proporcionou tamanha transformação no modo como utilizamos nosso tempo livre? A resposta pode estar em como o aparato tecnológico atual possibilita que, com baixo custo e risco, apliquemos aquilo que sempre tivemos: vontade de usar nossos talentos individuais para criarmos juntos coisas novas. Trata-se de uma revolução no modo como lidamos com a produção cultural. De, mais ou menos, 20 anos pra cá, a forma como a maioria de nós obtemos informação não é mais a mesma.

O autor vai apontar as impressionantes ferramentas criadas de forma compartilhada, e discutir os seus usos; como por exemplo do portal USHAHIDI, por meio do qual, quenianos puderam burlar a censura do governo local e divulgar atos de violência, em tempo real. O livro explica como explorar as oportunidades criadas pela tecnologia, e como fazer de seus recursos algo útil para melhorar o mundo.

Já pensou como poderíamos utilizar o espaço das redes sociais para além do mero entretenimento, manifestando opiniões críticas, criando intervenções sociais, políticas, culturais? Dessa forma poder-se-ia tratar do tempo livre como um bem social...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

PERGUNTAR COM DISSONÂNCIA..



É sabido que há muitas formas de se combinar a Arte. Uma das combinações mais bem-sucedidas na cultura do  mundo contemporâneo é entre a Literatura e o Cinema, haja vista, inúmeras obras transformadas em filme.  Às vezes o lançamento ocorre quase que simultâneamente em ambas as modalidades, não é?! Mas hoje quero falar de uma interface artística que,  até então, não tinha visto (ou se tinha, faltava-lhe a Excelência e a Beleza capazes de enternecer a este mortal..rs). A Fabulosa Banda do Curinga conseguiu esse feito, ao transportar toda a atmosfera de uma obra literária para dentro do seu disco de estreia. Trata-se do título O Dia do Curinga (de Jostein Gaarder). Com maestria, os músicos reproduzem, em algumas de suas composições a intrigante aventura narrada nesse livro - o segundo melhor romance escrito pelo filósofo norueguês (o primeiro, na minha opinião, é sem dúvida, O Mundo de Sofia). 

Transcrevo abaixo um trecho da primeira faixa do álbum. A quem interessar o site oficial da banda é: http://www.fabulosabandadocuringa.mus.br/site/

"...Vou procurando as saídas
De entradas encontradas mal contadas

E faz muito tempo que navego
E escorrego na certeza de sermos só mais um aqui

Vou descobrir os sabores escondidos
entre flores e cores
Vou descobrir as canções encantadas
por sorrisos contraídos

Quem quer entender o destino
Tem que sobreviver...
Quem quer entender a vida
Tem que se perguntar e a-notar"

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A ÁRVORE DA VIDA (2011)


O fio condutor da trama desta fenomenal obra cinematográfica é um tema de cunho metafísico. A personagem de Sean Penn, já com mais de 35 anos, mergulha numa convulsão de questionamentos sobre a morte de seu irmão, quando este ainda era uma criança - o que acaba por abrir um precedente óbvio: as dúvidas e inquietações sobre a própria vida. Dessas rememorações (que só nos damos conta depois de algum tempo de filme) emergem, no cotidiano deste homem, as perguntas existenciais. Então, na tentativa de respondê-las, segue-se a narrativa, quase que muda, do desenrolar fenomenológico, o princípio de tudo, desde o surgimento do universo, tal como nós minimamente o conhecemos, à origem da vida. Terminada essa parte, acompanhamos o núcleo familiar religioso que protagoniza a história, e todo o processo de criação e educação dos filhos, até o ápice da divisão de pensamentos provocados pelo mais súbito, enigmático e pungente de todos os eventos da vida humana: a morte. 

domingo, 31 de julho de 2011

Everwood


Everwood é um seriado tocante e dramático, com situações que certamente apontam para o pensar filosoficamente. Como no capítulo em que a garota Kate opta por abortar sua gravidez indesejada, mas seu médico Andy recusa em realizar o procedimento, mesmo declarando não ter princípios morais que o influencie. Ele diz: "Com 62 dias de gestação, o feto já adquire perfeita forma humana, mas não é uma pessoa, nem pode viver fora do útero, contudo, tem a perfeita probabilidade de se  tornar uma pessoa. Eu não sei quando a vida começa, mas sei que o aborto extingue a possibilidade dela começar...". A cena nos faz refletir sobre a dificuldade de se posicionar frente a discussão da legalidade e/ou humanidade da prática abortiva tão comum em nossos dias. Em outra cena, a personagem Delia conversa com seu pai sobre pudor. Este, fica encabulado por a filha, de apenas 9 anos, ter olhado uma revista do gênero pornográfico, e principalmente, por ela ter levado isso a público. Ele explica que "as pessoas gostam de olhar essas coisas mas tem vergonha de serem vistas fazendo isso", ao que a menina retruca (em outras palavras): se todos querem ver, todos gostam, e todos sabem que todos veem escondidos, por que as pessoas se repreendem quanto a isso? Deveriam poder fazê-lo abertamente ué!". Não sabendo exatamente a razão desse estranho comportamento social, o adulto argumenta que é por causa da cultura: "fomos condicionados a responder dessa forma a determinados estímulos...". E nós, aqui do outro lado, logo nos pomos a refletir: como se deu o início desse processo? Será que o pudor é algo natural do ser humano?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Recurso Educativo: o vídeo A História das Coisas


Reflexão e análise filosófico-educativa do vídeo A História da Coisas, pelo Prof. Dr. Marcos Francisco Martins (Filosofia e História da Educação pela Unicamp), - atual professor adjunto nos programas de pós-graduação da Ufscar.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A Ótica de Escher


clique na figura para ampliá-la

Os trabalhos do holandês, Maurits Cornelis Escher, impressionam pela desconstrução da ordem visual do mundo - uma intenção deliberada de derrubar as noções mais primevas sobre a realidade. Diante de suas obras, somos instigados a duvidar do que vemos, e isso é, tal como a tarefa da Filosofia, uma busca pela profundidade das coisas. As obras do artista parecem questionar o mundo visível. (A propósito, Escher e Descartes tiveram algo em comum: ambos souberam se valer do excepcional raciocínio matemático, do qual eram detentores, para conceber sua arte/filosofia - um, quebrando conceitos óticos por meio da combinação de gráficos surreais; outro, produzindo sentidos pelo encadeamento lógico de palavras.)

quinta-feira, 24 de março de 2011

ÁGUA VIVA




Associar obra literária à filosofia é, como dizem, "chover no molhado", pois toda literatura encerra em si mesma uma filosofia, isto é, na acepção mais vulgar do termo, uma ideologia, concepção de mundo e intencionalidade, próprias daquele escritor. Entretanto, no caso específico de Clarice Lispector, não é somente nesse sentido que se estabelece essa relação. Em "Água Viva", a genialidade da autora capta alguns pressupostos filosóficos e discorre sobre eles numa atmosfera intimista, em que o leitor é convidado a se aventurar nos limites da linguagem - um mergulho profundo no imenso oceano dos conceitos - ali onde se definem todas as coisas, busca-se, sobretudo, um encontro com a Essência. Em contrapartida a essas águas, que, tantas vezes turvas, embaçam nossa visão 'clarificada', neste livro há um longo respiro, suficiente para deslocar-se do desvendamento da palavra ao conhecimento do real. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O 2º ATO


Não dá pra dizer que O Teatro Mágico é meramente uma banda, suas apresentações que misturam dança, poesia, música, dramaturgia e números circenses deixam claro que o termo não é apropriado para definir esse grupo artístico de grande influência no cenário cultural independente. A trupe (como eles se autodenominam) é liderada pelo ator, cantor e compositor Fernando Anitelli que revela ter idealizado o projeto a partir de sua própria vivência nos saraus paulistanos. Com sua sonoridade peculiar, o Teatro Mágico faz, hoje, uma MPB rara e de muito bom gosto. Aliás, a sigla que nomeia o gênero musical também serve para intitular um outro projeto do qual são precursores: é o  Música Para Baixar - um trabalho de disponibilização de música gratuita na internet. 

Para nós, a relevância das composições do 2º Ato, o segundo álbum do grupo, é o que justifica figurá-lo por aqui. Por exemplo, a faixa "Pena" problematiza a questão da mercantilização da arte em nossos dias. Já a "Cidadão de Papelão" aborda o social, a dor de quem vive à margem de uma sociedade, hipocritamente cheia de candura. Em "Xanéu nº5" temos uma crítica à programação televisiva; e sua capacidade de anestesiar pessoas, que, sem saber, perdem suas vidas sentadas no sofá. "O Mérito e o Monstro" traz o corre-corre capitalista a que estamos condicionados; muitas vezes o desprazer de um trabalho massante e sem sentido, que solapa o viver. Uma poesia riquíssima é declamada em "Insetos Interiores", que parece retratar a maldade humana, ou sentimentos torpes, ou o pessimismo latentes em nosso ego. E isso é só uma amostra do cárater crítico e reflexivo do trabalho em questão.

domingo, 23 de janeiro de 2011

ALÉM DA IMAGINAÇÃO

Além da Imaginação - 2002
Idealizada por  Rod Serling e apresentada pela UPN, com produção de Ira Steven Behr e Jim Rosenthal entre 2002 e 2003, a série televisiva norte-americana de apenas uma temporada (contendo 44 episódios de 30 minutos, em média) é a continuação da produção, de mesmo gênero (ficção científica) que foi ao ar nos anos 60, com uma repercução impressionante.

Um narrador introduz o tema e a questão polêmica em que um ou mais personagens  se depararão durante aquele episódio: a trama procura por meio da imaginação, supor situações em que o homem teria de tomar uma decisão muito difícil. Essa abordagem faz com que os assuntos perpassem uma reflexão da nossa realidade, resignificando, assim, preconceitos e paradigmas. Cada capítulo é uma história à parte que se propõe a ir além da imaginação, mas, se para além da realidade já está a imaginação, então, "além" da imaginação seria um retorno à realidade?! Bem, é exatamente isso que a série faz, trazendo o imaginado para a concretude, numa tentativa de explicitar, não o sobrenatural, mas, as questões que cercam o nosso viver, individual e social:  nossos valores, crenças, sentimentos; conflitos, angústias ou temores. E é  aqui que o artifício utilizado pelos autores se presta a nós, pois, imaginar é sempre um processo criativo de representação, um esforço da mente em compreender ao mundo e a nós mesmos.

[Destaque para os Episódios:]
"One Night at Mercy"
"Shades of Guilt"
"Cradle of Darkness"
"Night Route"
"The Pool Guy"

sábado, 8 de janeiro de 2011

CRIAÇÃO



O longa-metragem, lançado em 2010, busca apresentar a síntese de uma das obras mais originais de toda a história do pensamento: "A Origem da Espécies" de Charles Darwin. Nele é narrada toda a trajetória dramática da pesquisa do naturalista britânico, que sabia que suas ideias gerariam muita polêmica,  e que portanto, deveriam ser realizadas sigilosamente. Embora seu mais proeminente livro fosse um choque para a sociedade vigente à época, logo ganhou visibilidade na comunidade científica mundial, dada a sua genialidade. 

A noção denominada hoje por darwinismo não fora constituída pelo cientista, mas por aqueles que interpretaram sua obra (ou viam nela um refúgio para suas  próprias conjecturas). Darwin nunca pretendeu por em choque as concepções sobre a origem da vida, ele era  apenas um homem importunado por questionamentos de sua mente, os quais o levara a investigar incansavelmente a realidade por ele observada (e é aqui que entra o pressuposto filosófico), ele ousou "xeretar" a vida com as ferramentas que possuía.  Estudou medicina e teologia e por isso mesmo nunca supôs que a Seleção Natural fosse a fonte criadora, pois, para haver seleção natural deveria haver algo a ser selecionado. Então, não se tratava de colocar em oposição deus e a teoria da evolução, mas, de entender como poderia existir tamanha variedade de espécies vivas, tão complexas e tão distintas, tão  semelhantes e tão únicas. (Na verdade não há sequer um ser repetido na natureza. Repetir representa limitação, mas, a Fonte Criadora é inesgotável.) Esse "maravilhamento" é o que inquietava Darwin.

domingo, 2 de janeiro de 2011

REFLITA-SE




O primeiro CD da banda carioca R.SIGMA, que desponta no cenário da música independente, traz um repertório que pretende mobilizar pensamentos, ou como diz um dos seus integrantes: "movimentar assuntos". Sem cair em estereótipos no que se refere a gêneros musicais, e quebrando a banalidade das letras que ouvimos por aí, o álbum cumpre com excelência a proposta ao poetizar e problematizar temas como: a crença, a liberdade, o ego, a morte, a artificialidade das coisas, a verdade. A obra é um convite à reflexão sobre quem somos, mas também, sobre quem queremos ser, tal qual a enigmática inscrição grega milenar "Conhece a Ti Mesmo". A valorização da Arte em sua forma mais genuína é claramente evidenciada no interdiscurso das composições, na estética das interpretações, nas melodias (e também nos textos poético-filosóficos postados no blog da banda, a qual, disponibiliza todas as músicas, gratuitamente, para download, em seu site oficial: http://rsigma.com.br).

A entrevista para o site Roquemrou revela um pouco das intenções e dos ideais de R.SIGMA: http://roquemrou.wordpress.com/2010/08/30/roquemrou-entrevista-r-sigma/

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

CIRQUE DU SOLEIL


Fundado em 1984 por Guy Laliberté, um ex-artista de rua, o Cirque du Soleil revolucionou a arte circense no mundo. A companhia que tem sua sede no Canadá já passou três vezes pelo Brasil, emocionando de maneira vertiginosa seus espectadores. Isso porque a trupe realiza um espetáculo inigualável, que mistura técnicas do circo de Moscou, comédia Dell´art e influências do teatro mambembe; além de contar com uma trilha sonora contundente e encantadora (composições exclusivas de cada apresentação, e executadas ao vivo). A beleza dos números é tão intensa que chega a minimizar os perigos que cada talentoso (e porque não dizer  corajoso) artista enfrenta durante sua exibição, mas isso, só para os olhares mais desatentos.

Para a Filosofia, o que mais interessa são as metáforas presentes em cada parte do show, que seguramente não possuem apenas função estética, pois emerge do pensamento não difuso de seus idealizadores. Trata-se de uma obra concisa, uma narrativa imagética que inafugentavelmente transmite uma mensagem. Assim, permite uma abundância de análises críticas das ações e concepções humanas ali representadas, uma vez que os espetáculos, de antemão, se propõem a contar uma história - história essa que não pode deixar de ser fruto da imaginação dos homens, que por sua vez, só podem imaginar a partir da realidade por eles apreendida.
[Destaque para Corteo, Quidam e Midnight Sun.]

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A HISTÓRIA DAS COISAS


Annie Leonard é uma ambientalista norte-americana; com seus estudos, por mais de 10 anos, foi possível produzir documentários estarrecedores como o "Story Of Stuff" (A História das Coisas). Neste, ela deflagra como a atual economia de materiais, adotada pela humanidade para garantir o desenvolvimento das sociedades modernas, é um sistema em crise, que não pode subsistir por muito tempo, pois já está ocasionando a escassez dos recursos naturais e compremetendo toda a forma de vida no planeta. Eis o paradoxo espantoso: o progresso que tanto buscamos, e agora vivemos, é o mesmo que ameaça nossa existência.

Se os dilemas humanos é algo de que se ocupa a Filosofia, então, faz sentido refletirmos sobre o exposto nesse vídeo, o qual, almeja dar ciência do problema  e estimular o pensamento dos homens em busca das possíveis soluções.

Vídeo original disponível em: www.storyofstuff.org

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

HORTON, E O MUNDO DOS QUEM


A história traz o protagonista Horton, que um dia houve um pedido de socorro vindo de uma partícula de poeira que flutua no ar. Preocupado, ele a protege, abrigando-a num dente-de-leão (uma pequenina flor, por assim dizer), pois descobre ali existir uma civilização inteira de minúsculos seres: a Quenlândia. Eles tem tecnologia de ponta, um prefeito e tudo que precisam para viver. Mas não imaginam a infinitude que existe fora de seu próprio mundinho, muito menos ainda, têm ciência da fragilidade de suas vidas.

A relação com a Filosofia se dá no momento em que comparamos o pequeno grão de areia ao nosso próprio planeta, pois, de igual modo, ele é apenas um pedacinho de matéria flutuando no espaço infinito, não é mesmo? Seguindo a analogia, o dente-de-leão poderia ser a nossa galáxia, e Horton, deus.
A animação é do ano de 2008 e foi produzida por Seuss - também escritor. É uma adaptação que suscita questionamentos como: "existe um deus lá fora que ouve e atende pedidos? será que esse deus a tudo controla minuciosamente ou tão somente contempla sua obra como um pintor que acaba de finalizar um magnífico quadro?"

domingo, 5 de dezembro de 2010

MAFALDA

Tira 1
Tira 2

Mafalda, que dá nome ao cartoon criado pelo artista Quino, é uma personagem, que parece saber muito bem que a melhor maneira de filosofar é tecendo questões filosóficas. Aqui, ela irrompe uma reflexão com sua amiguinha Susanita a cerca de qual seria o sentido da nossa existência, ou a função dela. Mas a resposta que obtém não vai ao encontro de seu objetivo, pois a colega, primeiro diz não saber, depois vagueia sem nenhum senso crítico ou lógico (tira 1). Apesar das personagens do cartunista serem concebidas como crianças ficcionais, elas representam os adultos do mundo real, com suas próprias concepções de mundo, seus valores e experiência de vida. A tira 2 sustenta nossa avaliação sobre a personagem central, na qual as retóricas proferidas pela loirinha denotam o caráter filosófico dos questionamentos de Mafalda, e, em seguida, a elocução final revela a discrepância entre aquilo que povoa o pensamento de uma e de outra. A obra, surge então, com efeito educativo para crianças e adultos, além de proporcionar muito boas risadas.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS


O filme de Tim Burton, lançado este ano, faz uma releitura como nunca já vista da obra literária homônima de Lewis Caroll. Desde as primeiras cenas fica evidente o tom filosófico que o autor impõe à narrativa. A rica imaginação da pequena Alice a faz sonhar coisas que ela mesma considera malucas, embora, ao descrever o sonho, o faça com um certo entusiasmo; e impressiona-se ao comparar as possibilidades do mundo real e do imaginado com seu pai; ele, por sua vez, a conforta dizendo que esse é o indício de que ela será uma pessoa maravilhosa. Só esta cena já faz um elo significativo com a filosofia, uma vez que os filósofos não se cansam de dizer que a postura filosófica se assemelha à mente de uma criança, no que tange ao encantamento com o mundo. Em seguida, Alice já adolescente está numa carruagem com a avó; estão indo para a festa de casamento arranjado para a garota, que sequer sabe disso; a avó insiste que ela está inadequadamente vestida, pois não usa o corpete por baixo do traje, nem meias compridas; a menina responde que não gosta do corpete e confronta a senhora: “Quem decide o que é adequado ou não? Se as pessoas decidissem que usar um bacalhau na cabeça é o adequado, você usaria?”; A mulher fica bastante aturdida e Alice completa: “Pra mim, corpete é como um bacalhau”. O que a princípio parece ser simples rebeldia, na verdade, manifesta o olhar filosófico inserido na personagem central, o qual permeia toda a história.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

500 DIAS COM ELA


Nesse filme, o diretor Marc Webb subverte situações-clichê das populares comédias-românticas, trazendo um parecer mais realista para os dramas vividos nos relacionamentos amorosos. No caso, ele retratou o jovem Tom Hansem, que ao conhecer sua nova colega de trabalho - Summer, apaixona-se quase que instantaneamente. Ele idealiza o amor sobremaneira, enquanto ela simplesmente não acredita na consistência de algum sentimento que possa unir duas pessoas. Daí já se depreende que não se trata de mais um romancezinho com final feliz. A trama se desenrola a partir da rememoração do rapaz a cerca dos 500 dias que esteve com a linda moça, na tentativa de entender o porquê deles não terem dado certo. Essa narrativa é feita em ordem não-cronológica de modo a simular o funcionamento da memória humana. De certo, o jovem não poderia fazer um retrospecto linear de todos os fatos (esse aspecto, em muito, enriquece a produção).

A questão filosófica reside no fato de Tom crer piamente que, encontrar a garota dos seus sonhos, sua alma-gêmea, num dos 400 mil escritórios (ou entre 3 milhões e 800 mil pessoas) na cidade de Los Angeles, só tinha uma explicação: destino. Fica, então, duas perguntas para o espectador: a primeira consiste em definir o que é amor (e há uma cena em que as personagens discutem significativamente a questão), a segunda seria "você acredita em destino?", para a qual, a obra, nos momentos finais, sinaliza claramente uma resposta bastante plauzível.

INCEPTION (A ORIGEM)


Um homem de habilidades, ferramentas e parceiros extraordinários tem a missão de implantar uma idéia no subconsciente de uma pessoa importante no mundo dos negócios, de forma que essa idéia pareça-lhe autogerada. Para isso, terá de fazê-lo durante o sonho. Mas, num sonho simples não será possível trazer êxito ao objetivo, por isso, há de ser em sonho dentro de outros sonhos. A complicação se dá no momento em que a consciência dos envolvidos se perde e já não conseguem separar o que é sonho do que é realidade.

O filme, recém-lançado, simplesmente introduz a clássica questão filosófica: "Como posso ter certeza de que tudo o que vivo agora é real e não sonho?". Ou em outras palavras: como posso provar a mim mesmo que estou inserido na realidade e não num sonho? Talvez isso não nos seja facultado, pois no sonho, tanto é possível um mundo ordenado (como achamos que o mundo real é), quanto é possível um mundo desordenado. E quantas vezes já nos confrontamos diante de um fato absurdo e dissemos "isso não pode ser verdade", tamanha era a subversão da ordem (como acreditamos ser um sonho).