quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

PERGUNTAR COM DISSONÂNCIA..



É sabido que há muitas formas de se combinar a Arte. Uma das combinações mais bem-sucedidas na cultura do  mundo contemporâneo é entre a Literatura e o Cinema, haja vista, inúmeras obras transformadas em filme.  Às vezes o lançamento ocorre quase que simultâneamente em ambas as modalidades, não é?! Mas hoje quero falar de uma interface artística que,  até então, não tinha visto (ou se tinha, faltava-lhe a Excelência e a Beleza capazes de enternecer a este mortal..rs). A Fabulosa Banda do Curinga conseguiu esse feito, ao transportar toda a atmosfera de uma obra literária para dentro do seu disco de estreia. Trata-se do título O Dia do Curinga (de Jostein Gaarder). Com maestria, os músicos reproduzem, em algumas de suas composições a intrigante aventura narrada nesse livro - o segundo melhor romance escrito pelo filósofo norueguês (o primeiro, na minha opinião, é sem dúvida, O Mundo de Sofia). 

Transcrevo abaixo um trecho da primeira faixa do álbum. A quem interessar o site oficial da banda é: http://www.fabulosabandadocuringa.mus.br/site/

"...Vou procurando as saídas
De entradas encontradas mal contadas

E faz muito tempo que navego
E escorrego na certeza de sermos só mais um aqui

Vou descobrir os sabores escondidos
entre flores e cores
Vou descobrir as canções encantadas
por sorrisos contraídos

Quem quer entender o destino
Tem que sobreviver...
Quem quer entender a vida
Tem que se perguntar e a-notar"

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A ÁRVORE DA VIDA (2011)


O fio condutor da trama desta fenomenal obra cinematográfica é um tema de cunho metafísico. A personagem de Sean Penn, já com mais de 35 anos, mergulha numa convulsão de questionamentos sobre a morte de seu irmão, quando este ainda era uma criança - o que acaba por abrir um precedente óbvio: as dúvidas e inquietações sobre a própria vida. Dessas rememorações (que só nos damos conta depois de algum tempo de filme) emergem, no cotidiano deste homem, as perguntas existenciais. Então, na tentativa de respondê-las, segue-se a narrativa, quase que muda, do desenrolar fenomenológico, o princípio de tudo, desde o surgimento do universo, tal como nós minimamente o conhecemos, à origem da vida. Terminada essa parte, acompanhamos o núcleo familiar religioso que protagoniza a história, e todo o processo de criação e educação dos filhos, até o ápice da divisão de pensamentos provocados pelo mais súbito, enigmático e pungente de todos os eventos da vida humana: a morte. 

domingo, 31 de julho de 2011

Everwood


Everwood é um seriado tocante e dramático, com situações que certamente apontam para o pensar filosoficamente. Como no capítulo em que a garota Kate opta por abortar sua gravidez indesejada, mas seu médico Andy recusa em realizar o procedimento, mesmo declarando não ter princípios morais que o influencie. Ele diz: "Com 62 dias de gestação, o feto já adquire perfeita forma humana, mas não é uma pessoa, nem pode viver fora do útero, contudo, tem a perfeita probabilidade de se  tornar uma pessoa. Eu não sei quando a vida começa, mas sei que o aborto extingue a possibilidade dela começar...". A cena nos faz refletir sobre a dificuldade de se posicionar frente a discussão da legalidade e/ou humanidade da prática abortiva tão comum em nossos dias. Em outra cena, a personagem Delia conversa com seu pai sobre pudor. Este, fica encabulado por a filha, de apenas 9 anos, ter olhado uma revista do gênero pornográfico, e principalmente, por ela ter levado isso a público. Ele explica que "as pessoas gostam de olhar essas coisas mas tem vergonha de serem vistas fazendo isso", ao que a menina retruca (em outras palavras): se todos querem ver, todos gostam, e todos sabem que todos veem escondidos, por que as pessoas se repreendem quanto a isso? Deveriam poder fazê-lo abertamente ué!". Não sabendo exatamente a razão desse estranho comportamento social, o adulto argumenta que é por causa da cultura: "fomos condicionados a responder dessa forma a determinados estímulos...". E nós, aqui do outro lado, logo nos pomos a refletir: como se deu o início desse processo? Será que o pudor é algo natural do ser humano?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Recurso Educativo: o vídeo A História das Coisas


Reflexão e análise filosófico-educativa do vídeo A História da Coisas, pelo Prof. Dr. Marcos Francisco Martins (Filosofia e História da Educação pela Unicamp), - atual professor adjunto nos programas de pós-graduação da Ufscar.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A Ótica de Escher


clique na figura para ampliá-la

Os trabalhos do holandês, Maurits Cornelis Escher, impressionam pela desconstrução da ordem visual do mundo - uma intenção deliberada de derrubar as noções mais primevas sobre a realidade. Diante de suas obras, somos instigados a duvidar do que vemos, e isso é, tal como a tarefa da Filosofia, uma busca pela profundidade das coisas. As obras do artista parecem questionar o mundo visível. (A propósito, Escher e Descartes tiveram algo em comum: ambos souberam se valer do excepcional raciocínio matemático, do qual eram detentores, para conceber sua arte/filosofia - um, quebrando conceitos óticos por meio da combinação de gráficos surreais; outro, produzindo sentidos pelo encadeamento lógico de palavras.)

quinta-feira, 24 de março de 2011

ÁGUA VIVA




Associar obra literária à filosofia é, como dizem, "chover no molhado", pois toda literatura encerra em si mesma uma filosofia, isto é, na acepção mais vulgar do termo, uma ideologia, concepção de mundo e intencionalidade, próprias daquele escritor. Entretanto, no caso específico de Clarice Lispector, não é somente nesse sentido que se estabelece essa relação. Em "Água Viva", a genialidade da autora capta alguns pressupostos filosóficos e discorre sobre eles numa atmosfera intimista, em que o leitor é convidado a se aventurar nos limites da linguagem - um mergulho profundo no imenso oceano dos conceitos - ali onde se definem todas as coisas, busca-se, sobretudo, um encontro com a Essência. Em contrapartida a essas águas, que, tantas vezes turvas, embaçam nossa visão 'clarificada', neste livro há um longo respiro, suficiente para deslocar-se do desvendamento da palavra ao conhecimento do real. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O 2º ATO


Não dá pra dizer que O Teatro Mágico é meramente uma banda, suas apresentações que misturam dança, poesia, música, dramaturgia e números circenses deixam claro que o termo não é apropriado para definir esse grupo artístico de grande influência no cenário cultural independente. A trupe (como eles se autodenominam) é liderada pelo ator, cantor e compositor Fernando Anitelli que revela ter idealizado o projeto a partir de sua própria vivência nos saraus paulistanos. Com sua sonoridade peculiar, o Teatro Mágico faz, hoje, uma MPB rara e de muito bom gosto. Aliás, a sigla que nomeia o gênero musical também serve para intitular um outro projeto do qual são precursores: é o  Música Para Baixar - um trabalho de disponibilização de música gratuita na internet. 

Para nós, a relevância das composições do 2º Ato, o segundo álbum do grupo, é o que justifica figurá-lo por aqui. Por exemplo, a faixa "Pena" problematiza a questão da mercantilização da arte em nossos dias. Já a "Cidadão de Papelão" aborda o social, a dor de quem vive à margem de uma sociedade, hipocritamente cheia de candura. Em "Xanéu nº5" temos uma crítica à programação televisiva; e sua capacidade de anestesiar pessoas, que, sem saber, perdem suas vidas sentadas no sofá. "O Mérito e o Monstro" traz o corre-corre capitalista a que estamos condicionados; muitas vezes o desprazer de um trabalho massante e sem sentido, que solapa o viver. Uma poesia riquíssima é declamada em "Insetos Interiores", que parece retratar a maldade humana, ou sentimentos torpes, ou o pessimismo latentes em nosso ego. E isso é só uma amostra do cárater crítico e reflexivo do trabalho em questão.